domingo, 29 de janeiro de 2017

Poeta lógico

Há lógica
Na lógica
Do poeta?

Sim, por certo,
Como há lógica
No vôo de um pássaro,
Mas não como há lógica
No vôo de um jato.

Como há lógica
No pulo do gato,
Nas flores que nascem
No meio do mato,
No beijo, no ato, no cacto,
Porque a poesia
Não é um jogo de dados
Nem cláusula de contrato.

Há lógica
Na lógica do poema
Como há na pena
Ou no chilro
Da ave que gorjeia,
Como no vôo da abelha
Ou no adejo,
De flor em flor,
Da borboleta,

E, então, traduzi-la
Em metáfora,
Em palavra,
Em som,
Em letra,
Em mar...

Há tanta lógica
No poema
Quanto há na borboleta,
Em vê-la
E imaginá-la,
Em sonhá-la
E escrevê-la
Depois de vivê-la,

Suas asas, cores
E antenas
Em palavras
E lógica
Que nos transmitam
Todo o apuro
E leveza
Do que acertaram chamar
De beleza.

Que o poema
Seja lógico,
Não como um relógio
Ou um edifício,
Mas como jóia,
Luz pela clarabóia
A iluminar-lhe
O corpo físico.

Que o poema
Não pareça
Frio construto
E seus fins,
Mas fruto
Cujo fim
Seja não ter
Qualquer fim,
Senão aquele
Que faça sentido
Para mim,

Senão aquele
Que, não sendo prévio,
Seja de fato
Meu olhar
Sobre os pássaros,
Cactos, prédios
E o mar...

domingo, 16 de outubro de 2016

Cemitério judeu

Quando eu morrer,
Enterrem-me
No cemitério judeu,
Pois sempre fui pária,
Errante sem deus.

Enterrem-me
Onde não há cruzes,
Nenhum branco,
Só mármores negros,
Austeros e limpos,
Morada final dos ímpios.

Lá onde não há
De Deus,
Horror do infindo,
Qualquer sinal.

Apenas lápides, ínclitos
Que nunca encararam
Sinistras madonas
Do mal.

Desmundo, lugar
Para os que nunca
Nesse mundo
Tiveram lugar.

Plenitude tumular
Cujas simetrias e retas
Comunicam ideal
De vida e de lar.

Enterrem-me lá,
Longe das feras,
E talvez nem lá
Me queiram as lápides.

Eu que nunca fui
Cristão, judeu,
Apenas eu –
Meu próprio sal.

sábado, 16 de julho de 2016

Dissecar-se

Dissecar as próprias pernas
É como eviscerar
A mente e o coração,
Adentrar quartos
E cavernas.

É transpor as censuras
E nos ver ainda
Como éramos antes
Das acusações
E das recusas.

É ver poços e delírios
Aonde vão beber
A mais profunda água
As feras apascentadas
Pelo poeta maldito.

É ferir a própria carne
E ver as entranhas
Que encerram o ser
Feito de vísceras
Repletas de aves e infâncias.

Dissecar o próprio corpo
É como trazer à vida
Aquilo que jamais
Foi esquecido ou morto -
O fratricida!

É afundar em pântanos
E ressurgir perjuro,
Livre de demônios e santos,
Feito apenas de músculos,
Lutos e sangue.

É ser guiado
Ao coração do mundo
Por estradas
Repletas de riscos
E encruzilhadas.

É ir por um caminho
Ladeado por rochas
E precipícios
Que não conhecem
Verdades ou destinos.

Dissecar as próprias vísceras
É ser conduzido
Até às veias
De quem fura os olhos
E corta a própria orelha.

É adentrar
A casa de madeira,
Deitar no banco de pedra
E dormir no silêncio
Do nada e da treva.

sábado, 23 de abril de 2016

Trepar não é amar

Trepar não é amar
É um jorro
Quente na minha cara.

A tara
Que me acusa e desvenda
Quando mergulho
Em tantas fendas.

O grito e o gozo
Que sorvo
E escuto
Entre chicotes e algemas.

Trepar não é amar
Não é sequer gostar,
É muito mais,
É só querer,
É uma busca incessante
Pelo ser
No gozo e no prazer.

Trepar não é amar
É ter,
Sobretudo ter,
Para logo depois
Perder
É ver o corpo
Como escada
Para o tudo
Ou para o nada
E esquecer.

Trepar não é amar
É gozar,
Sobretudo gozar,
Pois pode-se amar
Dias, meses, anos a fio
Sem jamais gozar,
Sem jamais entrar no cio,
Porque amar é sofrer
E trepar é querer,
É morder
O que tantaliza
Nosso ser.

Trepar não é amar
É querer, nu,
Mergulhar
Num cálido mar.

Amar
É querer
Também,
Querer
O que não se pode ter,
O que está além
Das nossas forças
Ou ser
Porque amar,
Em si,
É ansiar-se só,
Sem ninguém.

Amar é querer-se
Além do corpo,
É no fundo desejar
Estar morto.

Trepar não é amar,
É não querer
Estar morto,
Mas viver
Sempre no centro
De todo o corpo.

É tão sublime
Quanto matar
Ou trepar
Num altar
É cometer um crime!

Trepar não é amar,
É ser perverso
E se tornar objeto
De insanos desejos
Secretos.

É encenar papel baixo,
Despojar-se
De toda a vergonha e recato
Só para ter acesso
À silhueta atrás do véu
E à caixa que guarda
Preciosa jóia e anel.

Trepar não é amar,
É vociferar-se
Na janela
É uivar ou ladrar
Feito cadela.

Trepar é ser denumano e cruel,
Não é ser homem e mulher
Mas algo que resfolega ou galopa
Como um corcel.

Trepar é cravar e contorcer-se,
É rasgar e morder,
É ir até onde toda a carne
Sempre vai doer.

Trepar não é amar,
É ter na boca
Um beijo tantalesco,
É gritar venéreo
Contra o amor
Tão sério,
Que jamais vê
O que também somos:
Burlescos.

Trepar não é amar,
E se amamos
Enquanto trepamos
E se,
Por um breve instante,
Por um triz,
Consegue alguém
Ser feliz,
Saiba:
Isso,
Seja lá o que for,
É muito mais

Do que amor.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Serpente

Há uma serpente
Que de mim sai,
Espada, samurai.
Irrompe-me todos os poros
Insinua-se entre
Minhas pernas
Quando gozo
Ou mesmo
Quando
Me chupas,
Penitente,
Criminosa,
De joelhos
Como se rezasses
Um padre-nosso.

Há uma serpente
Saindo
De minhas entranhas,
Que voraz
Me abocanha
Por noites inteiras
E que me faz,
Como um doidivanas,
Te pegar por trás,
Ouvir,
Como se fossem
Hinos, cânticos
E hosanas,
Os teus gritos
E vagidos,
Enquanto me lanhas
Nessa louca campanha.

Há sempre
Uma serpente
Em mim,
Porque estou
A ponto
De dar um troço,
De te morder
E devorar-te,
De te matar
E dominar-te,
Dando tudo
Tudo o que posso,
Só para ver-te
Abocanhar-me o pomo
E depois
Nele sentar-te
Como num trono.

(Rainha ou vadia?
O que importa?
És mulher!
És minha!)

Há uma serpente
Que se nos entranha
Inclemente,
Que nos leva sempre
Ao mais íntimo
De nossos corpos
E mentes,
Que se nos enrodilha
No peito, na cama
Ou na virilha,
Tornando nosso dia
Uma trama
De saliva,
Suor e orgias;

Uma busca
Incessante
Na lua ou no boquete,
No rabo ou no diabo,
Na santa ou na bacante,
Pelo pedaço, fatia
Que enfim nos complete
E celebre
Este fugaz instante.

domingo, 25 de outubro de 2015

Chuva

Chove,
Faz mau tempo
E, no entanto,
Não há
Nuvem no céu.

Chove tanto,
Bocas, luas,
Árvores secas,
Nuas
Aos meus pés incréus.

Chove,
Torrente
Sobre minha cabeça
Sem guarda-chuva
Ou chapéu.

Chove,
Chuva forte
Ou miúda,
Chove
Guerrilhas e disputas.

Chove
De um céu mavorte
Chacinas e mortes.
Chove porque
Somos todos réus.

Chove
Contra o céu
E as gotas de chuva
Enchem-lhe o cálice
Com mares de fel.

Chove
De céus cruéis
O consumo
Que nos determina
A vida e o lucro dos cartéis.

Chove
De um céu sem céu,
Sem lua
Ou firmamento
Ao canto do menestrel.

Chove!
Chuva, queima
De pântanos
E sistemas,
Imenso fogaréu.

Chove
Dívidas, cifras
E despesas,
Chove monstros
Da chuva e da beleza.

Chove
Pouco salário,
Descontos,
O prejuízo acionário
Sobre o povaréu.

Chove
A solidão
Dos sobretudos,
O labéu de impostos
E tributos.

Chove
Contra nossos gritos
O mármore
E o granito
De vetustos mausoléus.

Chove!
Chuva – brasa,
Desespero
Que desaba
Dos arranha-céus.


sexta-feira, 24 de julho de 2015

Paraíso perdido

O paraíso
Nunca foi perdido
Nós é que vamos
Perdidos nele.

A vez primeira
Em que me tornei
Um passarinho
Foi naquela jabuticabeira.

Foi de manhã
Num domingo
Quando me tornei
Ainda mais lindo.

Beijo o mundo
Inocente
A tudo pertencente
Beijo-o álacre
Sem nenhum milagre.

Tomo-me
De tamanha simplicidade
E sinto-me
Tão jovem
Que já não tenho idade.

Meu presente
São os longes
Que não vivi outrora
Por isso me sinto
Tão ausente
Solto em todo o ente.

Meu passado
É tão próximo
Que o já não lembro.
Fiz dele um desenho
Que ora apago,
Ora xilogravo
Nas asas de um pássaro,

E o futuro dos homens
Não me angustia
Ou consome
Se resume a este dia
A tudo o que é
E some.

Cobras e lagartos
Conversam comigo.
Como todos os frutos
E nenhum é proibido.

Passo por corredores,
Estradas e escadas
Sentindo o rasto
De lavanda e gasolina.
Trepo com pretas e polacas
E faço negócios da china.

Sou um novo adão
E ando nu, ao léu,
Nas asas de um avião
Ou das borboletas
A adejarem
As flores de um vergel
No paraíso perdido.

Bebo de todas as fontes.
Mato aqui
Toda a minha sede e fome
A beijar liliths, santas e marias,
A dar festas, risos e alegria,
A brincar com diabos e meninos,
Os mais belos que já vi.

Ter medo de quê
Se jamais saberemos
Se o boticário nos preparou
Um perfume ou veneno?

Nada me impressiona
E fico atento,
Sensível a tudo
Que, visível,
Me emociona,

Porque é bom
Ouvir as ondas
Batendo no cais,
Amar, cantar
Sorrindo,
Para depois morrer
Como os pardais
À beira do mar,
À beira do lindo.