segunda-feira, 3 de julho de 2023

Desde menino

 

Desde menino sonhava,
Queria uma namorada bonita,
Uma família feliz,
Casar um dia na igreja.
Sonhava porque havia sempre
Em mim
Um círio a queimar,
Um devoto a orar
E uma canção de amor
Sob a luz do luar.
Sonhei até ver
Os amantes repousando
Num leito de pedra,
Até ver o desespero
Dos que naufragam em alto-mar,
Hirtos esqueletos
Jazendo em meio a algas e trevas.
Hoje, não sonho mais
Como menino;
Sei que engano e minto
Como se quisesse conter
Meu choro após o grito,
O lume do círio
Agora extinto,
Um mar que me afoga
Bravio.


terça-feira, 27 de junho de 2023

Soneto do homem só II

 


Chegou teu companheiro de viagem
Que sai da casa ainda adormecida
Sem nada de importante na bagagem
E volta cochilando p'la avenida.

Chegou teu companheiro de pilhagem
Que sai de casa feito uma criança
E volta carregando na roupagem
Destroços luminosos da esperança.

Um pouco de teu fôlego e lugar,
Do que sequer consigo imaginar,
Resquícios que me sobram de nós dois:

Calçadas, alamedas e desvios
Que em vão nós percorremos erradios
Sem nada o que deixarmos pra depois.

domingo, 11 de junho de 2023

Lunático

Ó louca lua

Desnuda e gélida,

O que me contas

Nesta noite tétrica?


Que um dia

Estes corpos

Mortos e frios

Foram vidas elétricas?


Que estas bocas

Silentes da afasia

Um dia foram

Coro e algaravia?


Ó louca lua

Desnuda e pétrea,

Um dia foste

Lauta e profética!


Inspiraste,

Insana e frenética,

O coração dos ascetas,

Dos abades e dos poetas


E foste o álibi

De todos os criminosos,

Daqueles que buscavam

Em cismas e milagres

O perdão e a eternidade.


Tu me aparecias

Em forma de mulher

Com as vestes rasgadas,

Um seio e o púbis à mostra

Numa solitária estrada

Em que, iníqua, tu brilhavas.


E por mim acompanhada

Nada me dizias

Ou me indagavas,

Apenas o meu leito

Tu corrompias

Na madrugada.


Eu vinha do mar.

Era onde eu te via,

Mas não onde te tinha,

Pois era num lupanar

Em noites frias

Que te possuía

Dos céus despregada.


Ó santa pura e profana,

É por ti que o herege

Peca e exclama!


Tu que dos céus

Preparaste as insídias,

Rasgaste as insígnias

E todos os véus!


E nua, sempre nua

Como uma hetaíra

No firmamento

Da Grécia antiga


Ou noctívaga

E sonâmbula

Nos sofrimento

Dos que amam

Na mais escura treva

Habitada por corvos,

Templos e altares

Em ruínas,


Vagas, deambulas

Por todos os corações

Em festa ou em luto

De quem caminha

Por átrios, câmaras e colunas

Ou dorme debaixo dos viadutos.


Oh, tu que foste

A perversão e o vício

Dos corações apaixonados,

Errantes e perdidos


E te derramaste

Nas noites e vales

De brilhantes catadupas

E telúricos tropismos.


Oh, tu que foste

A breve loucura

No torturado espírito

De todos os arrependidos,


Ó louca, nua,

Impassível e gélida,

Tu me torturas,

Tu me torturas

Há incontáveis eras!

domingo, 4 de junho de 2023

Corvo

 Escrever às vezes

É um estorvo.


O quanto penou Poe

Até chegar ao O Corvo?


É vasto o céu

Assim posto,


É vasto o céu

Assim póstumo!


O quanto penou Poe?

E ele está morto!


Mas o corvo,

Com suas asas


Sobre a estátua

De Palas,


Mas o corvo

Sempre à nossa espreita,


Atrás, na frente,

À esquerda ou à direita;


Mas o corvo,

Sempre à nossa porta,


É um estorvo,

Velho, sempre novo,


Ave, Demônio

A estraçalhar-nos os sonhos,


A pousar no busto de Palas

E no meu ombro,


Negro, negro, negro

A curvar-se no meu leito.


Grasna que a morte

É para todos


E que a vida e a sorte

São nosso maior engodo,


Grasna aos quatro cantos

Como um louco.


Oh, o quanto penamos

Lendo O Corvo?


Irmão, Poe,

Ele também se foi,


Irmão, Lee,

Nunca mais o vi -


Mortos, mortos, mortos

Aos pés dos corvos!


Hoje é uma asa negra,

Deus sem trono,


A velar-me o sono,

Meu corpo que só deseja.


Nunca mais! Nunca mais!

É o agouro que nos putrefaz.


Matou-me o verso,

Negreja-o agora


O último fóton

Do universo.


Sinto-me fraco,

Amargo, travo,


Sinto-me sem espaço,

Um velho calhamaço,


Sinto uma vontade

De me matar,


De nunca mais amar,

De reescrever-me almaço,


De despojar-me

Do corpo, da carne,


De cortar-me o braço

E dormir, velando-me,


Para curar-me de tanto

Medo e cansaço.


Oh, o quanto nos alertou

O grito do Grou


Antes que nos viesse o Corvo

Aos umbrais após o voo?!

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Tempo


Tudo já aconteceu,
Pois acontece e acontecerá

No mesmo tempo

Todo o fluxo já passou
E ainda passa e passará
Neste exato momento.

Toda a hora sempre chega
Porque já passou.
Por isso, somos agoirentos.

O tempo é um rio parado
Embora haja tanta gente
Afogada e sem alento.

E, mesmo estático,
Vivemos ardentes
Em meio a tantos tormentos,

Porque, mesmo parado,
Vivemos na aparência
De discursos e argumentos,

Na ilusão de calendários,
Dias, anos e minutos
Em meio a sonhos e dezembros,

Porque, mesmo cumpridos
Seu destino e fado,
De nada sabemos.

E o que há somente
É a luz que dilata
Distâncias e comprimentos,

Tudo o que vemos
É o para além dos nossos olhos
Do chão ao firmamento.

Assim não o sentimos
Como insensível cristal,
Mas como nosso tegumento,

Por isso não o sentimos
Como massa inerte de gelo,
Mas torrente ardente de tempo,

Ou, mesmo parado,
Como solo livre do sólido,
Pântano lutulento

Onde afundamos,
Onde morremos e nascemos
Na ilusão dos fragmentos,

Porque o tempo é um todo,
Rio sem fluxo ou corrente,
Congelado movimento,

Aquilo que muitos confundem
Com a existência
De algum ser eterno e supremo.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Amigo íntimo

Satã é nosso amigo mais íntimo,
Loucura a nos prender sempre lúcidos,
Verdade aos nossos olhos translúcidos.

Satã é meu amigo mais íntimo,
A faca do estripador londrino
Na carne de meus irmãos e primos.

O prazer, o terror e a agonia,
Chaga a intumescer o nosso dia,
Totem erguido sobre as ruínas

De rotas bandeiras e doutrinas,
Da fé que levou ao assassínio
E à travessia do peregrino.

Ó rei das coisas subterrâneas,
Das misérias humanas e insânias,
És mão que nos lança aos precipícios.

Inspiraste os profetas de Tages,
Arúspices e a mente dos sages,
És o vinho e a sidra dos abades.

Te lançaste do centro de Théia
Para dentro do planeta Terra,
Lua dos infamantes e feras,

Basalto a erigir a crosta e as eras,
Aquilo que dizem ser o inferno
Mas que é vida, ouro, magma e ferro.

Pai dos nômades e dos covardes,
Em tudo teu ardor nos queima e arde,
És nossa ciência, paixão e arte.

Berço em que células e estruturas
Engendram-nos vontades escuras
Que sentimos por coisas escusas.

E mesmo privado de hino e de culto,
Sobrevives nas odes mais puras,
Na fúria e no desejo insepulto.

Pois ainda ouvimos o sibilo
Que ecoa do nosso desatino,
Do mestre francês, do alexandrino.

Porque não escutas os incultos
E fazes que o sexo das putas
Nos libere de toda a recusa

E que as santas no altar das capelas
Jamais aparentem ser mais puras
Do que a febre e o cio das cadelas.


domingo, 4 de junho de 2017

O caso Steve Bartman

É preciso perdoar
Steve Bartman,
Pois ele não fez
Nada de errado.

É preciso perdoá-lo,
Pois até Cristo
Perdoou crucificado,
E Bill Buckner
Mesmo depois
De ter errado
Pelos fãs do Red Sox.

É preciso enviar-lhe
Nossos mais sinceros
Pedidos de desculpas
Por termos sidos
Gente tão hipócrita
E estúpida.

É preciso que
Moisés Allou
Peça-lhe desculpas
Pois vivemos hoje
Todos com vergonha
E nus.

É preciso pedir perdão
A ele por tê-lo tornado
O homem mais desprezado,
Por tê-lo transformado
De todo o mundo
O homem mais solitário,

Por termos querido
Linchá-lo
Apenas porque
Esticou o seu braço
Como tantos outros
Ao seu lado.

Ó, pobre carneiro,
Sobre o qual
Lançamos
Todo o nosso ódio
E desespero.

É preciso que todos
Que o chamaram
De idiota
Por fazer
Aquilo que
Nos ensinaram fazer
Peçam-lhe desculpas
Pois a culpa
Não foi sua
Pela derrota.

É preciso que
Todos os jogadores
Do Miami Marlins
Peçam-lhe desculpas
Por terem vencido
Um jogo que deveriam
Ter perdido,

Tornando um gesto
Anônimo e óbvio
Em vergonha,
Tristeza,
Infâmia
E opróbrio.

É preciso perdoar
Steve Bartman
Recebê-lo
Com presentes
E afagos
No Wiringley Field
E deixar que volte
Para Chicago.

É preciso perdoá-lo,
Pois senão
Nossos corações
Sempre estarão
Agitados,
Corroídos
À procura
Daquele
Em quem jamais
Deveríamos
Ter cuspido
Ou xingado.

Quem não pegaria
Aquela bola?
Não foi isso
Que nos ensinaram
Na escola?

É preciso perdoar
Steve Bartmam,
Pois ele não é
Nenhum renegado,
Senão seríamos
Todos, como ele,
Culpados
Para sempre
Por nossos atos
Mais singelos.

É preciso perdoar
Steve Bartman
Porque, sobretudo,
Perdoá-lo
É perdoar-nos
Por sermos
Em tudo
Tão cruéis
E severos.

Mas talvez
Steve, triste
E só,
Queira apenas
Que o esqueçam
De uma vez...

E talvez
Não precise
De nenhum perdão
E já tenha esquecido
De qualquer
Acusação

E como
Esfaimado
Lobo ou leão
Tenha devorado
Todo xingamento
E culpa
Que algum dia
Lhe aprisionaram
O ser e o pensamento,

Pois talvez
Steve Bartman
Nem seja mais
Steve Bartman,

Talvez tenha esquecido
O dor de outrora
E chame-se agora
Carl Birthman.

Talvez seja outro,
Renascido,
Criança sem culpa
Que corre
E gosta
De apanhar
Com a sua luva
Todas as bolas.