sexta-feira, 10 de maio de 2013

Sonho


Sonho
Que fujo
De monstros
Medonhos,
De tigres que me devoram
O próprio sonho.

Sonho
Que me cortam
O que tenho
De mais doce,
O fruto,
O sonho,
O pomo,
O que me faz sentir
Ereto, eterno
E todo.

Sonho
Que já não há
Mais festas e momos
E que em nossos
Lábios sôfregos
Resta só o choro,

Uma lápide
Sobre os beijos
Que damos
Sem nenhum recato
No meio da rua
Do nosso anonimato.

Sonho
Que meu sonho
Seca nas rugas
De um velho tardonho,
Enregela-se nas verrugas
De um casal tristonho.

Sonho.
E não há sonho pior
Do que sonhar
Que o próprio sonho
Naufraga em alto-mar,

E acordar sem saber
Se estive a sonhar
Ou se meu sonho
Foi só um sonho
A cismar ao luar.

sábado, 13 de abril de 2013

Fragmentos


        I

Não temo a vida,
Meu único versículo,
O fora e o dentro
De todo o círculo.

          II  

Buda, Cristo, Krishna,
Tudo será sempre
Artifício, verbo, fadiga,
Deus ex machina.

           III

Vejo sóis, noites
E alvoradas,
Círculos concêntricos,
Ondas a irradiarem-se
De um único centro:
O nada.

         IV

Sinto em tudo
Um profundo vínculo:
Somos todos surdos
Procurando sentido
Para o absurdo.

          V

A vida – furioso helianto –
Simula-se em canto,
Porque somos todos
Filhos da loucura
E do espanto.

            VI

Salto de todos os círculos,
Rompo circuitos, esferas,
Chego ao finis terra
Para ver o que tanto nos aterra:
O infinito ao finito circunscrito.

sábado, 23 de março de 2013

Poema da vida inteira


Outrora, qual a Aquiles,
Quase me devoraste,
Escamandro furioso,
Procela borrascosa – desmesura.
Espremeste-me contra paredes,
Pegaste-me pelos gorgomilos,
Exigindo-me tudo o que não tinha,
Tudo o que perdi ou vendi,
Tudo o que sempre exigiste de todos:
Venalidade!
Enquanto três bocas
Choravam ruidosamente.
Nestas horas, roubaste-me
Até meu corcel negro,
E quando pedi ajuda, decretaste:
“ – Não sei se é verdade... te vira, rapaz!”
Grande artista da esquiva e da omissão,
Quase me arrancaste todas as lágrimas,
Fazendo-me sinistros convites ao mar.
Terrível alquimista,
Transformaste todo meu mar e sal
Em pedra, todo meu céu e lume em lodo.
Entretanto, estou aqui:
Mil vezes amado, desprezado,
Mil vezes perdido e sem caminho,
Mil vezes sem profecia ou futuro
A te encarar nos olhos... vivo!
Com os ombros curvos
De quem muitas vezes baixou a cabeça,
Em cadeira, de quem quebrou
Orgulhosa cerviz.
Hoje, estou aqui te encarando,
A esboçar um sorriso,
Sem perigo de virar pedra.
Outros choram, lamentam-se,
Preferem puxar o gatilho da melancolia,
Embriagar-se da memória dos que partiram.
Comigo não é assim:
Já não sinto sede ou fome
Na língua seca, no estômago enjoado.
O esquecimento é o bálsamo
Que ofereces a esta esponja ressequida.
Hoje, vozes compungidas
Calaram-se em meu peito,
Aguilhões a me ferirem
Já não fazem mal
À carne afeita à dor.
Agora, admiro tardes iluminadas e frescas
Que tanta luta ensombrou, esfriou,
Que tanto arrependimento transformou
Em noite e tempestade...
Sinto-me faltoso, por isso humano, completo.
O futuro não mais me inquieta: vivido está!
Perdido está!
O passado dia-a-dia julga-me,
Mas vou sempre sorvendo as velhas mentiras
Que imobilizam toda a culpa
E as revoluções deixadas por fazer...
O presente reduziu-se a um zéfiro suave,
À profunda aceitação.
Este momento sem perspectivas, metas,
Ou pegadas encapsula-me.
Sou duro, carne de pescoço.
E agora?
Pergunta que já não cabe mais:
Agora estou completo, perdido,
Perdido...



sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Bélico


Flores bélicas
Rebentavam em todos os canteiros.
Bellum rufava seus tambores
Nas hostes do meu quarto,
Entoando um hino
Repleto de seqüestro e assassinato.
Súbito, então, comecei
A oferecer flores e balas
Nas escolas,
Nos cinemas e teatros,
Em todas as ruas
E casas,
Em ônibus e trens.
Eram lírios e tomilhos
Furibundos,
Narcotizados
E guerreiros,
Lançados dos rifles
E bombardeiros.
E tudo parecia-me terrível e Belo
Como a lua a estuprar-lhe os amantes
E a despregar-se, como um alien,
Sangrenta, crescente,
De nossos ventres.
Colhi todas essas flores
Ao som de desesperadas cigarras
E de justiceiras espadas.
Cheguei mesmo a cultivá-las e traficá-las
Por toda África e Palestina,
Flores fétidas e clandestinas,
Como um jardineiro
A passar tudo a facão,
Como um padeiro a envenenar o próprio pão.
Era preciso cumprir minha pena,
Seviciar todos
Que me maltrataram sem pena
E me entregaram aos chacais e hienas.
Hoje não cultivo mais.
Estou em paz.
Bato ponto,
Leio a bíblia
E entrego o protocolo
A mães que carregam no colo
Filhos e pais
De futuras chacinas.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Restos da América


Este poema é baseado no relato de Frei Bartolomé de Las Casas sobre a conquista da América e é a ele dedicado.

A ti, América, restaram somente
As avançadas furiosas,
O preclaro comandante à frente
Das hostes guerreiras
Ávidas de ouro e sangue!
Restaram-te somente
A pele trigueira ensangüentada,
Os crânios partidos
E os miolos esmigalhados
No solo calcinado.

Magua de Guarionex,
Marien de Guacanagari,
Maguana de Gonabo,
Xaraguá de Bechechio
E Higuey de Higuanama,
Reinos da Ilha Espanhola,
Outrora ricos e populosos,
Fecundos e abundantes,
De altas montanhas
E férteis riachos e ribeiros,
Tão grandes como o Ebro,
O Duero e o Guadalviquir,
Restaram-te somente
Tuas mulheres violadas,
Teus príncipes enforcados,
Os golpes de espada,
Os rumores de tantos prantos,
De tantos ais e gritos de pavor!
Restaram-te as lâminas perfurando
Os ventres grávidos,
Gargantas degoladas,
Os cães do preclaro comandante
A estraçalharem teus filhos,
As apostas cruéis sobre quem
De um só golpe de espada
Abriria um índio ao meio!
A ti, América, restaram somente
As chicotadas, as bastonadas,
As bofetadas, os socos e as maldições.

Sangrentas matanças nas ilhas
De São João e de Jamaica,
O sêmen corrupto
Do estupro e do assassínio
Na ilha de Cuba, do grão-senhor Harthuey.
Enfim, Neruda tinha razão!
A ti, América, restaram somente
A espada, a cruz e a fome!
Homens reluzentes
Que só conseguiam grunhir:
“- Donde está la plata? Donde está la plata?”
E a peste, e a morte e o terror
Que acompanhavam teus algozes!

De Nicarágua à Nova Espanha,
De Cholula à vila de Tepeaca,
Das províncias de Tupeque,
De Ipilcingo e de Columa,
De Guatamela, no mar do Sul,
A Naco, Honduras
Ou Guaiamura, no mar do Norte,
Sangue, tripas e extermínios
Consagraram tantas hóstias
Entre cânticos e louvores entoados
Sobre teu solo já abençoado, América!
Solo da onde brotou também
A carnificina e a perfídia,
A dissimulação e a mentira
A tirania e a devastação
Na prisão de Montezuma,
Na destruição de Viclatã,
Nas parturientes e velhos
Lançados às fossas
De estacas pontiagudas,
No escárnio do comandante
Que queimou os teus senhores,
Dizendo prestar-lhes homenagens.

A ti infligiram malditos estancieiros,
Terríveis calpisques,
Vis mineiros
Sedentos de ouro vil –
Eldorado manchado de sangue –
Malditos
A trucidar, a destruir,
A injuriar, a perturbar,
A prejudicar, a inquietar,
A atormentar, a oprimir a tua gente,
Enquanto se persignavam
Viciados, corrompidos
Desonestos e desordenados
Como um certo João Colmenero
Em Santa Marta.

Oh, pobres almas aflitas
Em tormentos, em angústias,
Em tristezas e aflições,
Oh, pobres almas amarguradas
Sob o jugo de mil aborrecimentos,
Sob o martírio de loucos enraivecidos,
De furiosos inimigos
Como a tenra carne estraçalhada
Entre os cornos de touros enfurecidos,
Como presas amarradas
A lobos, leões e tigres esfaimados –
Doze milhões de índios trucidados,
Quinhentos mil Lucaios expatriados,
Três mil léguas de terras,
Repletas de gente, arrasadas, desoladas.
Só Pedrarias, qual um lobo esfaimado
Que se lança sobre um rebanho de ovelhas pacíficas,
Tornou desertas mais de quarenta léguas,
De Darien à província de Nicarágua,
Matando, destruindo, queimando,
Seqüestrando, torturando, defraudando,
Roubando, aniquilando,
Desolando tudo e todos,
Tantos e tão grandes reinos
Desde o ano de 1504.

Oh, quantos órfãos deixados para trás,
Quantos homens e mulheres seqüestrados,
Quantas abominações execráveis,
Quantas calamidades e angústias,
Quantos suspiros e vagidos,
A liberdade roubada,
O corpo e a alma assassinados,
Os templos profanados
Por demônios, súditos
A servirem quem vive
De carne e sangue humanos.
Oh, toda tua riqueza
Na mão de gente iníqua,
Dos agualizes do campo
A perseguir e a caçar tua gente nas montanhas,
A manter toda a terra
Sob comenda cruel e tirânica
Todo o teu povo como se fosse
Paus, pedras, cães ou gatos
Vergastados com anguilhas, até a morte,
Por teus carrascos!


Oh, malditos e desnaturados
Que obrigavam reis e senhores
Homens e mulheres,
Crianças e velhos,
Tornados escravos e cortesãos,
A trabalharem dias inteiros, a fio, sob o sol,
Sem direito a descanso, água ou comida.
Malditos desmesurados
A separar famílias inteiras,
Maridos de suas mulheres,
Pais de seus filhos,
Mães de seus rebentos,
Tornando a vida tão desesperadora
Que as próprias mães
Esganavam e matavam seus filhos
Ou tomavam ervas para abortar
Ao sentirem-se grávidas.
Malditos responsáveis pela morte
De mais de sete mil crianças
Na ilha de Cuba, pela partilha
E pela fome de todo um continente,
Por tantos índios doentes,
Caídos pelos caminhos
Na desesperada tentativa
De encontrarem o caminho de volta para casa.

Oh, América de Panuco e Jalisco,
Do Reino de Iucatã
E da província de Santa Marta e Cartagena,
Da Ilha da Trindade ao Reino da Venezuela,
Dos Grandes Reino do Peru e de Granada,
Teus rios limpíssimos de súbito
Tingiram-se de rubra cor,
Teus campos férteis e formosos
Tornaram-se açougue de carne humana,
Alimento para abutres e soldados.

Não houve nem haverá
Tribunal que os condene,
Ação ou julgamento que reparem
Tamanho dano e destruição
Contra aqueles que diziam matar por direito.
América, não há quem te restitua
A riqueza roubada,
A glória perdida.
Agora, há somente
Um paraíso destruído,
A sangrenta história das matanças,
Tua nudez saqueada
Ante os mercados internacionais.

E hoje...
Hoje eu não vejo as edificações modernas,
Não vejo os autos passando velozes,
Nações fantasmas e a Plaza Mayor!
Não vejo conquistadores ou libertadores,
Pedro, Cortez, Alvarado, Montejo, Bolívar.
Vejo somente a História General de las Índias,
Generais e usurpadores!
Terra escravizada, grilhões nos meus pés,
Canudos!
Vejo somente o que restou
De um ato de violência,
Os filhos do estupro e da destruição,
As ruínas de Tenochtitlan,
Tua história, floresta e povo
Estarrecidamente dilacerados, América!

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Perdido


Perdi-me na combustão do dia.
Fui mosca tonta dos pés-sujos,
Mariposa louca e incendiária,
Sensualidade e ávida cupidez,
Fastio feito de misoneísmo,
Dias em que habitam tardes
Quase mortas de passageiros sonolentos
Nos bancos encardidos dos coletivos.
Ah, se alguém gritasse...
Ah, se alguém se incendiasse
E se matasse e explodisse
Uma bomba feita de sangue e dor
De grito e pavor
Ante as basílicas repletas de eco
De cada coração!
Ah! se alguém se sentasse ao meu lado,
Ouvisse-me as queixas e alegrias,
E acolhesse, em compaixão,
Minhas inúteis solicitudes e favores...

Perdi-me no seio forte,
No aroma doce e fétido,
Bêbado do néctar suarento
Que se escorre dos corpos da estiva,
Do soro enjoativo
Dos escritórios e repartições,
Da fadiga odorífica das noites de verão,
Dos pagodes incansáveis dos subúrbios
E do carrossel orgiástico dos puteiros.
Perdi-me no seio da grande cidade
Que grita contra si
Na face muda e silente
Dos que retornam do trabalho.
Perdi-me com o peito arquejante,
Com todos os sentidos e pensamentos alterados
Em noite lúbrica de narcóticos.
Perdi-me sexualmente,
Com o beneplácito de Cristo,
Sem raízes ou entendimento
Na curva acentuada das estradas
Da cidade mundial.

Transviei-me em suas luzes:
Brilhei e me ofusquei entre vapores
Expelidos por canos pretos
De gargantas e escapamentos.
Incendiei-me, louco, consumindo-me,
Consumindo-te
Nas sendas do fascínio e do tédio,
Tonto da mesmice
Das caras sufocadas dos bípedes enfadados
A se rastejarem por concreto
De vidas desprovidas de sopro animador.
Perdi-me em mil cabeçadas, em milhares
De lâmpadas, janelas, caras,
Em quibes frios e enjoativos
Para estômagos ulcerados.
Perdi-me nalgum sexo doente, nalgum regato poluído,
No quilômetro da saída anunciada,
Mas lá só havia mais estrada, mais cidade.

Corri nu por vielas irreais,
Desfraldei bandeiras, organizei comícios,
Berrei no megafone, deitei na avenida
Pela qual hoje passo mudo e depurado
Por faixas, sinais, apitos e a moda.
Quis atear fogo ao próprio corpo
Para que minha miséria fosse uma tocha
Na noite espectral desta cidade
Feita de alarido e escuridão.
Já quis muitas coisas, inclusive
Que todos quisessem tanto quanto eu,
Já até, ateu, clamei a Deus, no escuro,
Sob pancadas e coturnos...
Mas só obtive a traição
De quem nunca requereu minha fidelidade,
O tumulto de uma multidão incompreensível
Atropelando-me num tropel
De concreto, asfalto, avenida, indústria e comércio.
Tornaram-me um canalha sem sonhos
Ou eu me tornei um
E agora circulo por aí, desgarrado
Nos refugos urbanos,
Ostentando na estampa da camisa
O rosto de Che
Ao lado da menina que traz no peito
Um I love New York
Ou outra que vai pela pista
De camisa vermelha com a foice e o martelo
Sobre o seio esquerdo sem ser incomodada
Na cidade capitalista!

Alguém pode me dizer
Em que lâmpada dei minha última cabeçada,
Quando deixei de dar murro em ponto de faca,
Quando passei a seviciar meninos
E a me entregar a atos masturbatórios
Com meninas de dez anos?
Aquele pulha tinha razão quando disse
Que a Babilônia é o fim e o recreio de toda a vida
E que nunca fomos trombetas ou colunas de fogo
A anunciar e proteger a Éden socialista.
Agora temos apenas esta Babel sobre nossas cabeças!

Perdi-me...
Hoje, estou em silêncio
No formigueiro de concreto e asfalto,
Arranhando a languidez do azul,
Consumido por aranha sempre a tecer, infatigável,
Dominando tudo, todos com sua sombra
E ética confusas, impondo sua urdidura cruel,
Sempre disposta a ganhar mais dinheiro,
A excluir mais viventes,
A inocular outros corações...
Dia a dia, sua rede cresce,
Ramifica-se em todas as direções,
Unindo cada ser e lar,
Cada coração e alma,
Tornando irmã toda a vida
De teia que urdiu.

Já desafiei ruas e avenidas contra o conformismo,
Esquinas e arranha-céus,
Imprecando contra carros e semáforos.
Hoje, retorno de ônibus para casa,
Fraterno a todos, em conformidade,
Compreendendo inteiramente
O cansaço e a solidão de cada classe e profissão.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Iniciação


            I


Tu que esperas o estro das cinco,
Como o inglês o seu chá
E o crente, o angelus...
Tu que esperas o estro das cinco,
Para compores alguns versos
Plangentes de amor e flor –
Vê-me! Pousa os olhos sobre mim,
No rebanho ignoto de minhas carnes!
Eu caminhava quase ao teu lado,
Entanto preferiste apreciar
O decote e a bunda de mais uma qualquer.
Vê-me! Pousa os sentidos sobre mim,
Mesmo que ainda delirantes,
Mesmo que ainda enfastiados,
Porque já não tens o que cantar.
Olha quando bocejo,
E a náusea impele-me aos banheiros infectos;
Quando reconheço tua firma
Ou peço-te o protocolo,
Após um bom dia em dias maus.
Volve teu rosto ao meu opaco e habitual,
Para teus versos encherem-se de sombra.
Vê-me! pois a lua agora
É dos cientistas e burocratas,
As estrelas há muito se apagaram
E nenhum brilho restou nestas faces, nestes céus,
Enquanto, sobre nossos lares,
Pesam monóxido de carbono, pressa
E celas esquecidas com sangue e vergonha.
Toque-me, se puderes,
Pois há muros entre nós,
Tijolos de indiferença e anonimato,
Grito abafado e delação.
Toque-me! Sinta-me! Cheira-me! Escuta-me!
Pois o poeta torto
Que te pede chaves e decifração
Tinha razão:
O amor resultou inútil,
Homens se matam feito percevejos.

Restou-te só a mim,
Indesejada companheira,
Habitual aparição – fantasma,
Enquanto caminhas solitário,
Acompanhado por tantos de nós:
Multidão.


                 II

Agora que o estro das cinco
Chegou, pega minha mão e vem!
Quero mostrar-te tudo e nada.

Não temas, demente,
Não receies a verdade;
Ela reside no desconhecido.

Vem comigo, confia em mim;
Afinal despertarás, assustado,
Babando de teu frágil sonho.

Libertarás teus versos
De musas e ideais há muito
Desfeitos. Vem, pueril!

Vês aquela que passa?
Ela não te ama! De fato, ela passou...
Deixa que se vá como tantos...

Sei que ainda guardas
Dela as parcas palavras
Como recompensa e ilusão.

Sei que ainda conservas
A lembrança opiária
Que te engana dia-a-dia...

Vês aquele que passa
Na boléia de um caminhão,
Levando fria marmita?

Foi ela que a preparou
Para a fome fria de um ser
Frio, frígido que ama na tábua fria.

Deixe que passem. Tudo passa,
Tu, inclusive. Pobre lembrança
Que nem sabe mais o que inventar.

“ - O que me resta, então,
Senão esquecer? Esquecer!
Esquecer! Esquecer!”

Vês estes comendo
Devorados pelo tempo?
Tua família: pai, mãe e irmã.

Sabes do resto?
Creio desconfiares. Desejas
Saber? Suportarás?

Claro. Não há qualquer
Melodrama; telenovela
É o que tens de melhor ao coração.

Vês teu pai? Quem te ensinou
A amar os livros
E a odiar a todos?

Ele não te ama! Alimentou-te
Por mera obrigação
Paterna e olha-te com dó.

De fato, não tentaste muito
Te tornar filho e ele, pai. Ambos nunca
Tiveram pendor para filiação.

Não importa se te amou.
Faltou-lhe a paternidade
Que os piegas têm de sobra...

Não te revoltes, nem queres...
Aceita os homens e as coisas,
Livra-te de culpa ou rancor.

Na identidade, tens os campos,
Para a tua tarefa social,
Todos preenchidos – és homem!

“- O que me resta, então,
Senão matar? Matar!
Matar! Matar!”
  
Vês esta te embalando,
Como te acalanta zelosa,
Infatigável em seu dever.

Ela te ama. Missão outorgada.
Antigo ritual tantas vezes
Repetido, signo vazio: maternidade.

Disso não tem muita consciência,
Por isso te ama, te cobra
Pode apresentar tua dívida.

E tu? Não respondas nada.
Silêncio... atrapalhar-te-ias
Com a verdade e as palavras...

“ - O que me resta, então,
Senão esquecer?
Amar e esquecer...”

E tua irmã? Lembras das tardes
Fagueiras, das manhãs primaveris,
Do efêmero fugidio?

Não, não há nada para lembrares;
Na escuridão do quarto de hoje,
Procuras uma mão, mas nada encontras...

“ - O que nos resta, então?
Nada resta!
Nada presta, irmãos meus!”

E, agora, o que tens? Fantasmas
E feridas com que dialogas,
Expostos na galeria destes versos?

Onde ficou o inefável, o mistério?
Tuas mãos contristam-se por reflexo...
Guarda estas lágrimas – pura sensaboria.

Aceitas tudo conformado,
Calas tua fúria e rebeldia,
A raiva de ti, de todos.

Solta teu grito de silêncio,
Teu canto dissonante,
Tua palavra-eco aos surdos.
  
Vê a multidão: eis uma certeza!
Tu a amas e estamos nela –
Tua amada e família também. Cidade...