terça-feira, 18 de agosto de 2026

Soneto da sereia

 

De todas és a mais bela sereia

E, nos ventos e vagas de uma praia,

Passeias sempre linda pela areia,

Sorrindo de biquíni ou minissaia.


De dia, o sol e, à noite, a lua cheia

Iluminam-te o colo nu de arraia

Que faz, do pescador e da baleia,

Que o desejo por ti jamais se esvaia.


Ninguém a ti se iguala em tal beleza,

Pois não há quem te impeça de viver

Os dons que são da tua natureza:


Alucinado anseio do querer

Que me enche por completo da riqueza

Ao ver que és a mulher que deves ser.

sexta-feira, 14 de março de 2025

Soneto do homem traído

 

Do bar volto pra casa solitário
Sem ninguém que me faça companhia,
Remoendo o ideal de uma utopia
Que um dia me julguei ser necessário.
Deste mundo vivi o corolário
Da ilusão que meu peito consumia;
Que tudo não passou de fantasia
Vejo agora em meu rosto proletário.
Tudo fiz, mas não foi suficiente;
A ninguém enganei, mas iludido
E atraiçoado eu fui por tanta gente.
Pensava que o ideal era o partido,
Mas não vi que o partido era somente
Aqueles pelos quais eu fui traído.

terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Soneto do homem proletário

 

Meu rosto proletário e jacobino
De rugas vai se enchendo tão cansado.
Na fronte, vejo linhas conformado
A perder mais um dia citadino.
Na vida, me impuseram figurino
Que visto só, anônimo e explorado,
Porque não luta o povo alienado
Que um dia quer virar um girondino.
Me empenhei, mas não vi qualquer mudança.
Inútil pareceu todo o ideal
No qual cria repleto de esperança.
Aos poucos, vou chegando ao meu final.
Não posso mais lutar nem ser criança
E vivo eternamente desigual.

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Soneto do coração desventurado

 

Meu frágil coração desventurado
Não suporta sozinho sofrer mais.
Quer deixar de bater descompassado
E vibrar feliz, livre dos meus ais.
Meu pobre coração angustiado,
Que pulsa sem alívio ou qualquer paz,
Não consegue esquecer do meu passado
Que o rasga terrível e contumaz.
Não há para si bula ou medicina;
Assustado ele me vem logo à boca
E da aorta sinto no peito a ruína,
Pois nada o deixa leve e eternecido
E, perante essa vida muito louca,
Em pânico, dispara enlouquecido.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Soneto do povo idiota

 

Pensava que este povo, com valor,
Votasse agradecido e sem temor.
Pensava que ele ao menos fosse bravo
E não de ideias tolas fosse escravo.
Pensava que, por ser justo eleitor,
Votasse inteligente, sem rancor;
E pela gratidão, não por centavos,
Elegesse quem, sério e sem conchavos,
A todos governou com retidão.
Mas feito de idiota, seduzido
Por mentiras, votou prostituído,
Pois, ingrata, esta vil população,
Que jamais será nobre à foz de um tejo,
É do Botas, do escuro e velho brejo.

quarta-feira, 2 de outubro de 2024

Soneto da lésbica lua


Surge a lua no céu desta cidade
Nua, nele, flutua muito antiga,
Lúbrica sobre nossa castidade
E sempre a fantasia nos instiga.
Balão que paira sobre a realidade,
Não há por causa dela quem me diga
Que, sozinho, na sua intimidade,
Não amou um rapaz ou rapariga.
Alva, enquanto a contemplo desta praça
E traz o dia sujo a poluição,
Deslustrada parece que se embaça,
Embuça-se, lasciva e clandestina,
Para, oculta, em ardente relação,
Ter sensual a Estrela matutina.

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Soneto do homem malogrado

 

Sinto que o essencial em mim faltou,

Que tudo se esvanece sem demora,

Que rompo inutilmente toda a aurora

Desta vida em que nada me bastou.

 

Sinto que no fim tudo se frustrou,

Que alheio me tornei quem ignora,

Aceito ou reprovado, dentro ou fora,

O fardo que meu ser sempre curvou.

 

Me fica a sensação de ter vivido

O que me foi imposto ou obrigado

E jamais meu prazer ter consentido,

 

Pois logo que nasci vivi errado

O que nunca me fez qualquer sentido

E faz com que me sinta malogrado.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Nuvens

 

As nuvens vomitam tragédias,
Expelem desespero e trevas.
Não é sombra, chuva ou cantiga,
Não são anjos, suave brisa,
A neve branca e natalina.
As nuvens vomitam tragédias
De um céu sem nenhuma promessa.
E as mais fugazes e branquinhas,
De que gostam as criancinhas,
Somem, fogem, em bandos, junto
Com fadas, anjos e castelos
Do firmamento cor de chumbo
A desabar sobre este mundo
Com aguaceiros e flagelos.

sábado, 29 de junho de 2024

Soneto do homem em chamas

 

Todo um Zeppelin arde no meu peito.

Todo em chamas me queima no meu leito.

É fogo consumindo-me indecente,

Insânia que só minha carne sente.


Ânsia – desejo nunca satisfeito,

Coisa que me lançar de um parapeito

Me faz querer às camas loucamente

Em busca de prazer que me alimente


A boca que não cessa de querer

Beijos, bocas, ser que ama por inteiro

E bêbado só pensa em se perder,


Ardendo como Roma num incêndio

Ou no calor do Rio de Janeiro

Quem do excessivo amor quer o dispêndio.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Soneto da lamentação


Pena durarem pouco as amizades
E de igual modo as paixões e os amores;
Que desbotem como murchadas flores,
Pois tudo é breve e frágil nas cidades.
Pena ganharmos logo tanta idade,
Perder meu dia tão rápido as cores
Em meio a cãs, rugas e muitas dores,
Pois tudo é choro, tristeza e saudade.
Se um dia fui feliz, já não me lembro.
Encerro mais um lúgubre dezembro
Sozinho sem amada e sem amigo.
Se um dia fui alegre e desejado,
Agora vivo triste e desprezado
Como Ulisses vestido de mendigo.

domingo, 3 de dezembro de 2023

Esta cidade


Esta cidade
Atravessou-me o lado
E dele saíram
Portos e esquinas,
Punhos cerrados
E quarenta dias
De sede, fome e delírios.
Dele saíram
Homílias e evangelhos,
Imensos megatérios,
Soluços e violoncelos.
Dele saíram
Raios e insetos,
Alucinações
E cogumelos.
Esta cidade
Atravessou-me o lado
E dele saíram
Elevados cumes
E anjos
Que me precipitaram
Ao chão de asfalto,
Betume e concreto.
Dele saiu-me
O que sou:
A lança e o deserto.

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Boca

 

Boca primitiva
Onde, nu, escopofílico,
Venho sempre me sujar,
Onde de nada me privo
E me torno filho,
Rebento nascido
Em meio a sêmen e saliva.
És-me embrião e intestino
Para meus desejos escondidos,
Sádico amor, anterior
Ao masculino e ao feminino,
Alvo, presa de músculos e caninos.
Alimento
A esfaimado canibal,
Boca contra a qual
Os homens lançam
Recalques e desdém,
Mas onde não preciso
Ser nada, ninguém,
Só o cio do animal.

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Andar por aí


Andar por aí
É ser de novo
Jogado para o alto,
É ir trepado
Nos teus ombros
Sentindo o olor dos teus cabelos
E o frêmito ao ver
O contorno de teus seios.
Andar por aí
É brincar de novo
Na gangorra e no balanço,
Sob um olhar de candura,
Sentir o vento,
As lufadas de ar
No meu rosto e cintura.
Andar por aí
É ver de novo
O meu ferrorama
Dando voltas e mais voltas
Ao lado da minha cama.
Andar por aí
É voltar a brincar e correr
Pela praça,
É viver num mundo
Sem nenhuma ameaça.
Andar por aí
É esquecer os sacolejos
De mais uma viagem
Repleta de agonia,
A náusea e o desprezo
Que me acompanham
Até o fim do dia.
Andar por aí
É imaginar-me de novo
À barra de tua saia
Quando preparavas o almoço
E me falavas do perigo
Das facas e do fogo
Para que, quando
Eu fosse moço,
Tomasse cuidado
Com a cidade,
Com tanto rebuliço
E alvoroço.
Andar por aí
É estar de novo
No teu colo de acalanto,
É dormir no embalo
Dos teus braços
E canto.
Andar por aí
É voltar a ter esperança,
É rever-me,
Em cada rua,
Em cada esquina
E bairro,
Os tempos idos de criança.
Andar por aí
É repisar, repisar,
Passo após passo,
O entrelaço
Da minha vida
Com tanto aço,
Vias, vigas e vidas.
É ver o transfigurar
Da antiga vizinhança,
De velhas ermidas e endereços
Em tanta rua por que passo,
Em multidão que não conheço,
Mas na qual me vejo,
Rosto antigo de menino
Que nunca deixou
De ser teu filho,
Ó mãe, cidade,
Deste andarilho.

quinta-feira, 14 de setembro de 2023

No fim

 


No fim, o que nos resta?
A fidelidade do cão
A abanar o rabo
Entre bancos e cadeiras
Mudos após a festa?
Amplo espaço vazio
Sem bancos ou cadeiras,
Só com o cão,
Gárgula a contemplar
A última laje do poeta?
No fim, o que nos resta
Senão as frestas
Por onde víamos
O incomensurável desfile
De nossos ardores e metas,
De nossos beijos e desejos
Porque hoje
Os já não vemos mais,
Os já não temos mais?
Cobriu-as por completo a hera,
Devorou-os o colmilho do tempo,
Essa fera!
Agora, tudo calado,
Sem riso, sem pranto,
Jardim morto sem giestas,
Fruto maduro no chão
Sem ninguém para comê-lo,
Folhas mortas, dispersas,
Manto enlutado da terra.
No fim, o que nos resta?
Pouca coisa, alguém
Que, às pressas,
Nos faz uma prece!
No fim, o que nos resta?
Pouca coisa
Sem qualquer senso,
Silêncio - canto sem gesta!
O fruto, as folhas,
O cão, o chão -
Suma, súmula
De tudo:
Urna de treva.

terça-feira, 25 de julho de 2023

Sonho


Sonho
Que fujo

De monstros
Medonhos,
De tigres que me devoram
O próprio sonho.

Sonho
Que me cortam
O que tenho
De mais doce,
O fruto,
O sonho,
O pomo,
O que me faz sentir
Ereto, eterno
E todo.

Sonho
Que já não há
Mais festas e momos
E que em nossos
Lábios sôfregos
Resta só o choro,

Uma lápide
Sobre os beijos
Que damos
Sem nenhum recato
No meio da rua
Do nosso anonimato.

Sonho
Que meu sonho
Seca nas rugas
De um velho tardonho,
Enregela-se nas verrugas
De um casal tristonho.

Sonho
E não há sonho pior
Do que sonhar
Que o próprio sonho
Naufraga em alto-mar,

E acordar sem saber
Se estive a sonhar
Ou se meu sonho
Foi só um sonho
A cismar ao luar.

quarta-feira, 19 de julho de 2023

Para amar

 

Para amar, uma mulher

Não deve ser moralista.

Não é sabido

De ninguém que,

Sendo severo juiz

De si e do mundo,

Tenha amado

E sido feliz.


Para amar, uma mulher

Não precisa do pundonor,

Pois nunca o orgulho,

A honra e o valor

Evitaram que alguém

Se entregasse ao amor.


Para amar, uma mulher

Não precisa ser justa,

Pois o amor não diz respeito

À razão, ao direito e à justiça,

Pois sabe o quanto é vão

Ser justo nas sendas da paixão.


Para amar, uma mulher

Não precisa estar certa,

Não precisa agradar, ser reta,

Pois o amor não quer qualidades,

Não se preocupa com a verdade,

Só com o querer, o corpo e o cheiro

Que lhe excitam as vontades.


Para amar, ah, mulher,

Não é necessário virtudes,

Caráter, qualidades morais,

Predicados intelectuais

Que ajudam a amar,

Mas não nos roubam o ar

Como só conseguem os sensuais

E ninguém mais.


Para amar, mulher,

É preciso apenas um rosto,

Um sorriso, um olhar,

Um jeito de ser

E de se expressar

Que só consegue ver

Quem está apaixonado.


Pois só a fantasia e a ilusão

Podem fazer, mulher,

Amar um coração.


Pois o amor é um raio

Que ilumina

O espelho d’água

De dois olhos

Onde vemos refletida

Do coração apaixonado

A própria alma.

segunda-feira, 10 de julho de 2023

Soneto do Viúvo

 "a vida não vale à pena se não há ninguém para se amar profundamente"

CHET BAKER


Pulsa em meu peito um coração perjuro

Sem encontrar nenhuma paz ou cura.

Habitam meu seio infeliz, escuro,

Pesares, perda e profunda amargura.


Mas, mesmo sendo um infiel impuro,

Desafiando meu destino e selo,

À mulher mais pura me uni seguro

Por seu intenso amor e manso zelo.


Hoje não zombo de quem se perdeu,

Pois também não gozo de um himeneu

E me tornei este ser ressentido.


Vivo sozinho, descuidado e triste

E apenas sei que o que em minha alma existe

É a dor imensa de tê-la perdido.

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Desde menino

 

Desde menino sonhava,
Queria uma namorada bonita,
Uma família feliz,
Casar um dia na igreja.
Sonhava porque havia sempre
Em mim
Um círio a queimar,
Um devoto a orar
E uma canção de amor
Sob a luz do luar.
Sonhei até ver
Os amantes repousando
Num leito de pedra,
Até ver o desespero
Dos que naufragam em alto-mar,
Hirtos esqueletos
Jazendo em meio a algas e trevas.
Hoje, não sonho mais
Como menino;
Sei que engano e minto
Como se quisesse conter
Meu choro após o grito,
O lume do círio
Agora extinto,
Um mar que me afoga
Bravio.


terça-feira, 27 de junho de 2023

Soneto do homem só II

 


Chegou teu companheiro de viagem
Que sai da casa ainda adormecida
Sem nada de importante na bagagem
E volta cochilando p'la avenida.

Chegou teu companheiro de pilhagem
Que sai de casa feito uma criança
E volta carregando na roupagem
Destroços luminosos da esperança.

Um pouco de teu fôlego e lugar,
Do que sequer consigo imaginar,
Resquícios que me sobram de nós dois:

Calçadas, alamedas e desvios
Que em vão nós percorremos erradios
Sem nada o que deixarmos pra depois.

domingo, 11 de junho de 2023

Lunático

Ó louca lua

Desnuda e gélida,

O que me contas

Nesta noite tétrica?


Que um dia

Estes corpos

Mortos e frios

Foram vidas elétricas?


Que estas bocas

Silentes da afasia

Um dia foram

Coro e algaravia?


Ó louca lua

Desnuda e pétrea,

Um dia foste

Lauta e profética!


Inspiraste,

Insana e frenética,

O coração dos ascetas,

Dos abades e dos poetas


E foste o álibi

De todos os criminosos,

Daqueles que buscavam

Em cismas e milagres

O perdão e a eternidade.


Tu me aparecias

Em forma de mulher

Com as vestes rasgadas,

Um seio e o púbis à mostra

Numa solitária estrada

Em que, iníqua, tu brilhavas.


E por mim acompanhada

Nada me dizias

Ou me indagavas,

Apenas o meu leito

Tu corrompias

Na madrugada.


Eu vinha do mar.

Era onde eu te via,

Mas não onde te tinha,

Pois era num lupanar

Em noites frias

Que te possuía

Dos céus despregada.


Ó santa pura e profana,

É por ti que o herege

Peca e exclama!


Tu que dos céus

Preparaste as insídias,

Rasgaste as insígnias

E todos os véus!


E nua, sempre nua

Como uma hetaíra

No firmamento

Da Grécia antiga


Ou noctívaga

E sonâmbula

Nos sofrimento

Dos que amam

Na mais escura treva

Habitada por corvos,

Templos e altares

Em ruínas,


Vagas, deambulas

Por todos os corações

Em festa ou em luto

De quem caminha

Por átrios, câmaras e colunas

Ou dorme debaixo dos viadutos.


Oh, tu que foste

A perversão e o vício

Dos corações apaixonados,

Errantes e perdidos


E te derramaste

Nas noites e vales

De brilhantes catadupas

E telúricos tropismos.


Oh, tu que foste

A breve loucura

No torturado espírito

De todos os arrependidos,


Ó louca, nua,

Impassível e gélida,

Tu me torturas,

Tu me torturas

Há incontáveis eras!