Transitas tonto,
Febril e mudo
Num dia grávido
De ardor e pressa.
És nau sem mastros
Dos vãos e ruas
De esquina e beco
No oblíquo muro
Que torna tudo
Um texto em braile,
Um caos de casas
Em mil vielas
Também caóticas,
Estranho texto
De origem bárbara
E lido só
Por quem habita
As tais vielas,
Os tais casebres
Que, em meio à rixa,
Disputa e socos,
Procuras sempre,
Acerca deles,
Tal qual filólogo,
Tal qual legista
Baixar juízo
Que acalme angústia
De quem não lê
Esquiva língua
De corpo vivo,
Feroz, barroco.
Portanto, lê-lo
Num breu terrível,
Cruzar seus lares
E tantos mares,
Sem mastro ou lentes,
Te deixa assim,
Tão só, perdido,
Sem luz, no muro
Atrás de porto,
Verbete ou livro
Que te traduzam
Tecido raro.
Porém, encontras
Fuligem densa
E vil desordem,
Estranha língua,
Bravio corpo
Que só entendes
No teu silêncio
De noite e eco,
Perdido algures.
O que desejas
É tão somente
Rossio calmo,
Profundo e largo,
Em que tu possas
Achar abrigo,
Remanso tênue
De estio e noite
Que o fero pego
Converta enfim
Em rasa poça,
Mar seco e manso –
Cidade, língua
E um corpo lasso,
Que te revelem
Ser que reluz:
Canto e amavio.
Sou poeta,nascido aos 24/02/1976 em Porto Alegre. Meus poetas tutores são Drummond, Baudelaire e Fernando Pessoa. São eles que orientam meu pensamento e labor poético. Este blog é feito para quem gosta de poesia Publicarei nesta página, portanto, alguns poemas de minha autoria e também de outros grandes poetas, além de comentários sobre meus poemas e de outros escritores.
domingo, 19 de dezembro de 2010
sábado, 11 de dezembro de 2010
Esfinge

Cofre mudo de aço e espelho,
Quem irá te interpretar
Os códigos e os segredos?
Refletes prédios e carros,
Árvores, gentes e cúpulas,
Mas quem pode ser o espelho
Do espelho em si refletido?
A que Édipo te propões,
Se não há quem te refrate
Nesta manhã tropical?
Se não há quem te decifre
Nesta cidade de enigmas
A refletirem-se em ti?
Tua estrutura de vidro,
De aço e de viga em espaço
Exposto à luz litorânea,
Sobre corpos quase nus,
Não revela teus segredos,
Não revela qualquer vão,
Tua hermética nudez,
Nem descuido de janela
Descerrada por acaso
A ferir a geometria
Regular de tuas linhas.
Apenas à noite deixas
Entrever teus escritórios,
Uns parcos interiores
Já de cripta e desertos,
Sem as gentes que de dia
Tu enclausuras com mistérios
Invioláveis aos de dentro
E aos de fora amalgamados
Pela forma e arquitetura
Especular do edifício
A representar a efígie
Pelas estradas e escadas
De nossa vida diária.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Casamento

Meu casamento
É como o vento;
Soprou faceiro
Levou as folhas
Da solidão
Que neste pátio
Do ser no escuro
Se acumulavam
E bichos davam...
Me trouxe então
Um roseiral
De um altiplano
Americano
De rosas cheio
Que pouso fez
Nos átrios meus
Pra florescer
No alvorecer
De claro dia
Ao himeneu
Do nosso amor.
Não há mais bichos,
Não há mais ursos
Que após o sono
Despertam sós.
Mas passarada
Que canta assim:
“Casar é bom
Com quem amamos,
Pois traz um dia
Alvissareiro
Que só promete
Fortuna e sorte”.
Então feliz
Eu saio ao pátio
Co’a tua mão
Na minha mão
Pra contemplar
A ação do vento
Que as folhas secas,
Sem direção,
Pra longe as leva,
Bem como aos poucos
O roseiral
Vai desfolhando,
Até deixá-lo
Desnudo a um céu
Que nos contempla
Indiferente.
E vem a noite
E agora nus
Nos recolhemos
Enfim sabendo
Que a condição
Do ser no mundo
É a da falta,
É a do pátio
Sem roseiral;
Por isso, vem,
Do pátio nua
Amar-me mais
Se inda puderes!
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Tecelã
Tecelã de traço e forma,
És contrária ao arbitrário;
À desordem impões modo,
Aparência que te agrada.
Frente a todo esse tumulto,
Traças formas e volumes.
O tecido que se urdiu
Contra o intento da razão
Tu desfias em quimeras,
Reprojetas proporções,
Redesenhas arrabaldes
Sobre a folha de papel.
Régua, lápis e compasso
Traçam ordem à cidade,
Entretecem teus desenhos
Inimigos dos garranchos.
Tal quimera entanto notas
Deste intuito tão complexo:
Há pessoas nas vielas,
Multidões incontroláveis
Te ferindo, pululando,
Vomitando escrita insana
De tortuosos domicílios
Formidando irrefreáveis,
Construídos na premência
Implacável de viver,
De morar, sobreviver
Em cidade que se fecha,
Põe num cárcere a beleza,
Em um cofre sem segredo
Para quem ficou de fora
Esquecido, pelos becos.
Entretanto, tu não cessas
Teus projetos sobre a folha:
Tão concreta poesia
Que teus versos são as linhas
De indivíduo geométrico –
Teu recôndito profundo,
Claro mundo de ideal:
Monumento solitário
A ti mesma dedicado:
Pedestal em que te pões
Face um mundo tão faltoso
De arte e técnica e afeto.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Leão

Todo o dia levanto-me,
Pulo da cama ouvindo, lá fora,
O rugido do leão.
Escovo os dentes, visto-me,
Preparo o café, enquanto ele
Vai de um lado a outro, esfaimado,
Numa infatigável faina de devoração.
Que fazer? Não acordar?
Não levantar pra trabalhar ou rezar?
Não há como!
Há sempre o inelutável
Do despertador, de homens e ambições
Enrodilhando-se-nos,
Espreitando-nos nas esquinas,
Na savana do coração.
Não há como fugir,
Amansar o leão,
Pô-lo numa coleira de circo,
Numa jaula de picadeiro;
O leão é cobra!
Todos os dias saio para matá-lo;
Visto-me, perfumo-me para isso,
Em frente ao espelho, penteando o cabelo,
Organizando a agenda, apertando
O nó da gravata, enrolando
Uma maçã em papel,
Desviando munição e armamento.
Todos os dias o esfaqueio,
Esperando o momento derradeiro
Em que terei de esquartejar-lhe o ventre,
Comer-lhe as tripas, sujar-me
De seu sangue e empalhar uma cabeça,
Que se parecerá com a minha,
Na parede alva da sala.
Então terei vencido:
Serei pior!
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Hubble

Sou de certo um ser histórico,
Mas também (e está provado)
Dos altos céus, astronômico.
Caminho sob vetustas
E pesadas estruturas,
Enfrentando as tempestades
À sombra dos monumentos,
Debaixo do guarda-chuva
Com pessoas que se perdem
Cabisbaixas e famintas
Por extensas avenidas.
Sou de certo um ser histórico,
Vivo naus e afogamentos
Aos pés da severa estátua
De monarcas do passado
E cruéis conquistadores.
Sou gente urbana e comum,
Um latino-americano
Num bonde que segue rotas
Do nada a lugar nenhum,
Levando homens em assentos
Que viajam flatulências
Do emprego e da profissão.
Olho para o céu e sei
Que nas vastas amplidões
A gigante Betelgeuse
Enfim explodirá numa
Emanação de partículas
E gás inter-estelares,
Pois sob o espelho primário,
Telescópico, do Hubble,
Minha torre de vigia,
Toda nossa crença e história,
Nossos prédios e cidades,
Mausoléus e monumentos
Pesam e perduram tanto
Quanto a mão de uma criança.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
A praça do imperador

Na praça do Imperador,
Há tanta vida e estrutura,
Há tanta história e escultura,
Cúpulas e arranha-céus.
Na praça do Imperador,
Há monumentos e lápides,
O palácio e antigas torres
Encimadas pela Virgem.
A praça do Imperador,
Ela a própria é um monumento,
Inscrita imagem, momento
De marchas e pavilhões.
Na praça do Imperador,
Há o antigo ancoradouro
Das naus outrora aportadas –
O Pharoux e o chafariz.
A praça do Imperador:
Terreiro da Polé, Largo
Do Carmo, Paço real,
Praça XV de Novembro.
Em tantos nomes e histórias,
Marco zero da cidade,
Nosso berço e nascedouro,
Venho manso desaguar-me.
Na praça do Imperador
De tantos rios e Rios
A desaguarem erráticos,
Posso sereno espraiar-me
Após tanto caminhar,
Após tanto navegar
Com braços, pernas e pés,
E o coração afogado.
Assinar:
Postagens (Atom)