Amar o Diabo
É como amar o próprio Judas
O mais elevado,
Aquele a quem tentaram
Macular-lhe o brilho,
Denegrir encolerizados
O preferido do único Filho.
Amar o Diabo
É como amar o Evangelho,
A sublime canção,
Boas Novas
De que ninguém precisa de salvação.
Amar o Diabo
É desprezar os doze
Como se nada fossem,
É amar o décimo terceiro,
Ter a carne imolada
No templo de sacerdotes e carniceiros.
Amar o Diabo
É como amar
A geração de Adamás
E seus luminares,
Aquela que tentaram sacrificar
Nos altares
Dos que jejuam e se abstêm
Gritando aleluia e amém.
Amar o Diabo
É ouvir a voz de Satanás
Sussurrar-nos assaz
Que nosso chão,
Que nosso pão e além
Não é uma caixa
Onde se acha
Todo o mal ou todo o bem.
Amar o Diabo
É ter Judas Iscariotes
Como confessor e sacerdote,
Ser facho ou archote,
Apóstata,
Alvo dos apóstolos,
Malditos zelotes.
Amar o Diabo
É não ser gado,
Estar imundo e sem pecado,
Trazido ao mundo,
Da perdição das estrelas
E poder vê-las
Como antiga cela
Onde lhe devoravam
O fígado e as costelas.
Amar o Diabo
É ver o próprio Deus
Despir-se de todas as vestes
É vê-lo nu, sem desejos,
Monstro do Leste,
A contemplar no espelho,
Sem chifre ou rabo,
Toda a pureza do Diabo.
Amar o Diabo
É tornar-se pio crente,
Ter nas mãos a estrela e a serpente,
A ira acesa,
A marca e o chifre
De quem quer ser livre
E, enfim, se desnuda
Para crer
No evangelho de Judas.
Sou poeta,nascido aos 24/02/1976 em Porto Alegre. Meus poetas tutores são Drummond, Baudelaire e Fernando Pessoa. São eles que orientam meu pensamento e labor poético. Este blog é feito para quem gosta de poesia Publicarei nesta página, portanto, alguns poemas de minha autoria e também de outros grandes poetas, além de comentários sobre meus poemas e de outros escritores.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
sábado, 20 de agosto de 2011
Afrodite
Teu corpo de Afrodite incidental,
Nascido entre os escombros do meu dia,
Me surge enquanto dispo-me da cal
Das horas consumidas sem valia.
Teu corpo, epifania conjugal,
Sigilo e afago após a bizarria
Que me aflige tornando mais brutal
A mão que à noite busca-te erradia.
Refúgio de quem vive em meio às feras
De todos os banidos das esferas,
Dos anjos, prometeus e satanás
Que agora gozam, amam e trabalham
Na luta pelo pouco que amealham,
Afã com que teu corpo se compraz.
Nascido entre os escombros do meu dia,
Me surge enquanto dispo-me da cal
Das horas consumidas sem valia.
Teu corpo, epifania conjugal,
Sigilo e afago após a bizarria
Que me aflige tornando mais brutal
A mão que à noite busca-te erradia.
Refúgio de quem vive em meio às feras
De todos os banidos das esferas,
Dos anjos, prometeus e satanás
Que agora gozam, amam e trabalham
Na luta pelo pouco que amealham,
Afã com que teu corpo se compraz.
sábado, 11 de junho de 2011
É preciso amar o diabo
É preciso amar o diabo,
Touro e carneiro sobre nossas carnes,
Aranha, desejo
Sobre as horas vazias.
É preciso amar o diabo,
Mosca a rodear
As nossas pestilências,
Mão que flagela e alicia.
É preciso amar o diabo,
Abutre a estraçalhar-nos,
Negror a nos subornar
Com um saco de moedas.
É preciso amar o diabo,
Moabita a nos aguilhoar
Desde Fegor, língua e falo
A nos violar com labaredas.
É preciso amar o diabo,
Boca, bacilo, a nos morder
Com milhões de dentes,
Líbia a nos tornar o seu vassalo.
É preciso amar o diabo,
Goela a nos beber concupiscente,
Monstro do Oriente, tentáculos
E ventre a excitar-nos os mamilos.
É preciso amar o diabo,
Satã, Baal, Lúcifer e Asmodeu,
Luz que o próprio Deus
Quer nos roubar...
Touro e carneiro sobre nossas carnes,
Aranha, desejo
Sobre as horas vazias.
É preciso amar o diabo,
Mosca a rodear
As nossas pestilências,
Mão que flagela e alicia.
É preciso amar o diabo,
Abutre a estraçalhar-nos,
Negror a nos subornar
Com um saco de moedas.
É preciso amar o diabo,
Moabita a nos aguilhoar
Desde Fegor, língua e falo
A nos violar com labaredas.
É preciso amar o diabo,
Boca, bacilo, a nos morder
Com milhões de dentes,
Líbia a nos tornar o seu vassalo.
É preciso amar o diabo,
Goela a nos beber concupiscente,
Monstro do Oriente, tentáculos
E ventre a excitar-nos os mamilos.
É preciso amar o diabo,
Satã, Baal, Lúcifer e Asmodeu,
Luz que o próprio Deus
Quer nos roubar...
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Novas litanias a Satã
Ó tu terrível pai dos desgraçados,
Deus de todos que vagam derrotados,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Pai que por ser tão pródigo e ubíquo,
Fez do homem tanto santo quanto iníquo,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Primordial senhor de todo o andrógino
Que hoje afliges o devasso e o misógino,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Ó fé sem nenhum culto ou liturgia,
Inspiraste a mais negra litania,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Ó tóten ignoto da memória,
Cúmplice do ladrão, de toda escória,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Deus de quem elabora, vil, as farsas
E em transe bebe o sangue dos comparsas,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Pai do que afoga as mágoas na cachaça
E vive um dia-a-dia de desgraça,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Quem põe a quase todos de joelho
Diante de sinistro escaravelho,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Aquele que nos leva, em ânsia e febre,
A tudo dissipar num lance breve,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Ó tu, Pai da cobiça que me aferra
E nos conduz à luta, à inveja e à guerra,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Cão feroz que devora nossa entranha,
Mercador que co’a vida faz barganha,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Pai daqueles que clamam por Jesus,
Mas somente ao inferno fazem jus,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Senhor de quem se assola no cigarro
E ao mundo só oferece o seu escarro,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Sugeres o poeta e até o asceta
E imprimes tua marca à toda meta,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Terror que nos enreda em fortes súcubos,
Paixão que nos persegue até o túmulo,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Moral que leva mesmo os mais notáveis
À fome e à desmesura incontroláveis,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Tu cuja mão engendra os artifícios
De vidas que se perdem entre edifícios,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Deus do acaso, incidente eventual,
Jantas conosco, cúpido e letal,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Tu que tudo vês, nossa atroz miséria,
Malgrado vida pródiga e venérea,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Caído como tu do firmamento,
Fui expulso também do pensamento,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Satã, ouve, portanto, esta oração,
Com que cubro meu corpo em ablução,
(Tem pena, Satã, desta carne deletéria)
Que aqui devoto a ti, toda a semana,
Pai e razão da enorme angústia humana,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Origem do que chamam ser humano,
Tudo que torna nosso mundo insano,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Deus de todos que vagam derrotados,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Pai que por ser tão pródigo e ubíquo,
Fez do homem tanto santo quanto iníquo,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Primordial senhor de todo o andrógino
Que hoje afliges o devasso e o misógino,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Ó fé sem nenhum culto ou liturgia,
Inspiraste a mais negra litania,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Ó tóten ignoto da memória,
Cúmplice do ladrão, de toda escória,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Deus de quem elabora, vil, as farsas
E em transe bebe o sangue dos comparsas,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Pai do que afoga as mágoas na cachaça
E vive um dia-a-dia de desgraça,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Quem põe a quase todos de joelho
Diante de sinistro escaravelho,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Aquele que nos leva, em ânsia e febre,
A tudo dissipar num lance breve,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Ó tu, Pai da cobiça que me aferra
E nos conduz à luta, à inveja e à guerra,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Cão feroz que devora nossa entranha,
Mercador que co’a vida faz barganha,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Pai daqueles que clamam por Jesus,
Mas somente ao inferno fazem jus,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Senhor de quem se assola no cigarro
E ao mundo só oferece o seu escarro,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Sugeres o poeta e até o asceta
E imprimes tua marca à toda meta,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Terror que nos enreda em fortes súcubos,
Paixão que nos persegue até o túmulo,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Moral que leva mesmo os mais notáveis
À fome e à desmesura incontroláveis,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Tu cuja mão engendra os artifícios
De vidas que se perdem entre edifícios,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Deus do acaso, incidente eventual,
Jantas conosco, cúpido e letal,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Tu que tudo vês, nossa atroz miséria,
Malgrado vida pródiga e venérea,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Caído como tu do firmamento,
Fui expulso também do pensamento,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Satã, ouve, portanto, esta oração,
Com que cubro meu corpo em ablução,
(Tem pena, Satã, desta carne deletéria)
Que aqui devoto a ti, toda a semana,
Pai e razão da enorme angústia humana,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
Origem do que chamam ser humano,
Tudo que torna nosso mundo insano,
Tem pena, Satã, desta carne deletéria.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Párias
Acendes a fogueira
Que não é a bem faceira
De roda e de brincar,
De festa e São João
Mas gélida de agosto,
De ser todo em desgosto
Acesa pra espantar
Baratas e friagem,
Sob hirta e fria laje,
Sob hirta e fria noite
Escassa, de estiagem.
Tão fria que arrepio
Provoca qual açoite
De látego no corpo
Baldio, correntio,
Na trágica orfandade
Dos párias da cidade,
Escravos sem senzala.
Entanto tal fogueira
Dos sem eira nem beira,
De restos que tu catas
De esquinas e lixeiras,
Dissipa chama rala
Que pouca força tem
Ao frio secular
Que vem de tropical
Cidade americana
Enfim subjugar,
Enfim de ti afastar
Os ratos que também
Te correm pelos pés.
Contigo todos comem
Semelhos a novo homem
Que rói a velha lápide
Decrépita e ancestral
Que afunda em lamaçal.
E sob rija laje,
Concreto cru de ultraje,
Se esfria até a vontade
Da pobre mão pedinte,
De ser tornado helminte,
Esmolas suplicar –
Terrível condição,
Gravosa de aleijão,
Que além desta matéria
Te inflige a vil miséria.
Dormir é o que tu queres,
Dormir para esqueceres
A frágil noite e seres
Que habitam estes pântanos
De sapos e elefantes
Comendo a cria infante
Com molho de alcaparras
Em meio a loucas farras,
Enquanto tu escarras
Um rio intolerante
Aos pés de nossas casas.
Que não é a bem faceira
De roda e de brincar,
De festa e São João
Mas gélida de agosto,
De ser todo em desgosto
Acesa pra espantar
Baratas e friagem,
Sob hirta e fria laje,
Sob hirta e fria noite
Escassa, de estiagem.
Tão fria que arrepio
Provoca qual açoite
De látego no corpo
Baldio, correntio,
Na trágica orfandade
Dos párias da cidade,
Escravos sem senzala.
Entanto tal fogueira
Dos sem eira nem beira,
De restos que tu catas
De esquinas e lixeiras,
Dissipa chama rala
Que pouca força tem
Ao frio secular
Que vem de tropical
Cidade americana
Enfim subjugar,
Enfim de ti afastar
Os ratos que também
Te correm pelos pés.
Contigo todos comem
Semelhos a novo homem
Que rói a velha lápide
Decrépita e ancestral
Que afunda em lamaçal.
E sob rija laje,
Concreto cru de ultraje,
Se esfria até a vontade
Da pobre mão pedinte,
De ser tornado helminte,
Esmolas suplicar –
Terrível condição,
Gravosa de aleijão,
Que além desta matéria
Te inflige a vil miséria.
Dormir é o que tu queres,
Dormir para esqueceres
A frágil noite e seres
Que habitam estes pântanos
De sapos e elefantes
Comendo a cria infante
Com molho de alcaparras
Em meio a loucas farras,
Enquanto tu escarras
Um rio intolerante
Aos pés de nossas casas.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Natureza
Chupa-me
Com boca, língua e lábios tantalescos.
Chupa
Teu picolé fresco,
E baba e ama e sua
Minha genitalha
Sob o sol tórrido,
Sob um céu hórrido
De recalcada vindita,
Na praia do mar
Que conspira em silêncio,
Embora marulhoso,
Confrontando-se com a pedra
Em rancorosa desdita.
Num carro que a areia
Planeja engolir
Semovente, sorrateira
Tanto o herói quanto a sereia –
Orla que devora tudo,
O pulso, o músculo,
Auroras e crepúsculos
Litoral irascível,
Sequioso,
Como tu,
Ó boca, bacante
Abocanhando-me,
Despindo-nos de tudo
De qualquer linho ou veludo,
Todo o tecido
Esgarçado, franzido
No jeans da tua levi’s
Nesta hora indefenível,
Enquanto, além,
A floresta fumegante,
Brasil, braseiro,
Ampla terra de ninguém,
Arde
Na pélvis
Das meninas durante
As tardes e noites,
Noite adentro
Em boites,
Prostíbulos,
Turíbulo
Com que incensamos o dia
E a atmosfera
Que nos desce e se espalha
Das carvoarias,
Grossa, fornalha,
Feito hera
Sobre nossas casas
E as gaiolas dos gaturamos
Enquanto gozamos...
Com boca, língua e lábios tantalescos.
Chupa
Teu picolé fresco,
E baba e ama e sua
Minha genitalha
Sob o sol tórrido,
Sob um céu hórrido
De recalcada vindita,
Na praia do mar
Que conspira em silêncio,
Embora marulhoso,
Confrontando-se com a pedra
Em rancorosa desdita.
Num carro que a areia
Planeja engolir
Semovente, sorrateira
Tanto o herói quanto a sereia –
Orla que devora tudo,
O pulso, o músculo,
Auroras e crepúsculos
Litoral irascível,
Sequioso,
Como tu,
Ó boca, bacante
Abocanhando-me,
Despindo-nos de tudo
De qualquer linho ou veludo,
Todo o tecido
Esgarçado, franzido
No jeans da tua levi’s
Nesta hora indefenível,
Enquanto, além,
A floresta fumegante,
Brasil, braseiro,
Ampla terra de ninguém,
Arde
Na pélvis
Das meninas durante
As tardes e noites,
Noite adentro
Em boites,
Prostíbulos,
Turíbulo
Com que incensamos o dia
E a atmosfera
Que nos desce e se espalha
Das carvoarias,
Grossa, fornalha,
Feito hera
Sobre nossas casas
E as gaiolas dos gaturamos
Enquanto gozamos...
sábado, 2 de abril de 2011
Só
Assomo de raiva,
Cansado de tráfego,
Na lívida alcova,
Após o trabalho,
Tu queres prazer.
Amor tu desejas,
Amor, entretanto,
Tu queres sentir
Vibrando no corpo.
Que corpo, que amor
Se todo o fervor
Gastaste nas ruas,
Real sacrifício
De um corpo arruinado
No estuo do sangue?
Tesão vem de pílulas,
Amor das revistas.
Consome, criança,
Porção que te cabe.
Não sofras, não ames,
Encenas tão bem
Tesão e teus casos,
Amor infinito:
Teatro do ser.
Cartório haverá
Que te restitua
O eterno desejo
De amar para sempre –
Clangor corporal.
Por isso não chores
(De fato, não choras!)
A raiva de agora,
Teu pênis caído
É mero detalhe
De amor velho e gasto,
De um corpo abatido
Do dia e semana.
Agora, porém,
Chegou teu remanso:
O fim-de-semana
No rádio a canção
Renova teu ânimo
Seduz com promessas
De um sábado à noite
Repleto de amor.
A vida é a arte
Do encontro já diz
Ditado da moda.
Então, sai à luta,
Criança inconstante.
Nas ruas e bares
Conversas e danças,
Teu copo de uísque
Com outros tilinta,
Pois ébrio de amor
Almejas estar
Nas ilhas de amores,
Ainda que dure
O parco momento
Do orgasmo comprado.
E à noite sozinho,
Depois do motel,
Transido de frio,
Calado em perguntas,
Tu lanças um grito
E escutas somente
Silêncio e sigilo
Dos corpos alheios
Entre ecos profundos.
Cansado de tráfego,
Na lívida alcova,
Após o trabalho,
Tu queres prazer.
Amor tu desejas,
Amor, entretanto,
Tu queres sentir
Vibrando no corpo.
Que corpo, que amor
Se todo o fervor
Gastaste nas ruas,
Real sacrifício
De um corpo arruinado
No estuo do sangue?
Tesão vem de pílulas,
Amor das revistas.
Consome, criança,
Porção que te cabe.
Não sofras, não ames,
Encenas tão bem
Tesão e teus casos,
Amor infinito:
Teatro do ser.
Cartório haverá
Que te restitua
O eterno desejo
De amar para sempre –
Clangor corporal.
Por isso não chores
(De fato, não choras!)
A raiva de agora,
Teu pênis caído
É mero detalhe
De amor velho e gasto,
De um corpo abatido
Do dia e semana.
Agora, porém,
Chegou teu remanso:
O fim-de-semana
No rádio a canção
Renova teu ânimo
Seduz com promessas
De um sábado à noite
Repleto de amor.
A vida é a arte
Do encontro já diz
Ditado da moda.
Então, sai à luta,
Criança inconstante.
Nas ruas e bares
Conversas e danças,
Teu copo de uísque
Com outros tilinta,
Pois ébrio de amor
Almejas estar
Nas ilhas de amores,
Ainda que dure
O parco momento
Do orgasmo comprado.
E à noite sozinho,
Depois do motel,
Transido de frio,
Calado em perguntas,
Tu lanças um grito
E escutas somente
Silêncio e sigilo
Dos corpos alheios
Entre ecos profundos.
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